sexta-feira, 27 de setembro de 2013

From Russia with love

As estórias das minhas máquinas estão de volta. Hoje vamos até aos país dos Urais, mais precisamente a Moscovo. FED, iniciais do nome do Sr.Felix Edmundovich Dzerzhinsky, este simpático da fotografia que levou a cabo execuções sumárias em massa e foi o responsável pelo organismo que antecedeu o KGB na União Soviética.
   
                                               

Que raio de coisa tem a ver um bolchevique sanguinário com uma máquina fotográfica, mas tem. Além de por "ordem" na casa, este senhor foi também responsável pela criação duma rede de orfanatos pela URSS fora, possivelmente para tomar conta dos filhos cujos pais ele matava, mas adiante.Claro está, estes orfanatos, mesmo depois da sua morte eram controlados pela policia política, a terrível NKVD. Ora, todos sabemos que o trabalho é a maior libertação que se pode ter e não havia nada como educar os pobres órfãos fazendo-os trabalhar. Numa rara ocasião de lucidez e astúcia capitalista, a NKVD decidiu que os órfãos dum dos orfanatos às portas de Moscovo iam fazer uma cópia perfeita duma máquina fotográfica Alemã aparecida há poucos anos. A partir de 1933 (mais foice, menos martelo) lá saíram as primeiras cópias da Leica II, umas com nomes esquisitos, mas depois lá se decidiu dar um nome de peso à maquineta raptada na Alemanha, FED, de Felix Edmundovich Dzerzhinsky, pois então. Para que dúvidas não houvesse, nada como gravar também no topo da máquina "Orfanato NKVD", algo que fica sempre a matar numa máquina fotográfica, literalmente neste caso.


Está feito o preâmbulo para que se perceba a estória entre mim e a FED I, que felizmente exclui o Sr. Dzerzhinsky. Realmente, o que tem de ser tem muita força, e não é uma citação deste senhor.


Há uns anos fui a Moscovo no fim de Novembro, em trabalho. Enquanto outros andam atrás de Matrioskas e Lenines em plástico, eu ando a correr as feiras da ladra, se as houver. Ora, numa dessas feiras convenientemente localizada nas traseiras do meu hotel (lá está o destino) encontrei uma FED I num estado parecido ao de Lenine se fosse vivo. Era mesmo velhinha, ali no meio de todo o tipo de tralha. A máquina parecia-me original, com o nome do dito cujo gravado e um funcionamento surpreendentemente  suave, algo muito pouco comum na produção soviética. Perguntei o preço e abriram tanto a boca que se podia ver o chumbo nos dentes. Nada feito, não ia pagar tanto por uma coisa dúbia e velha, certo? Certo, claro...ou não.


Voltei para Portugal e o raio da maquineta vinha-me frequentemente à cabeça. Estava arrependido, havia qualquer coisa nela que me atraia e não era o nome! O mal estava feito, mas também fiquei a saber que voltaria a Moscovo em Março do ano seguinte, daí a 4 meses. E se...não, era sorte a mais. 



Claro está, mal regressei a Moscovo, assim que pude lá fui à feira das relíquias, direitinho à barraca do vendedor e...lá estava ela! Se calhar um pouco mais poeirenta, com mais tralha à volta e parecia dizer "Esperei por ti!" Decidido a a comprar, lá se negociou o preço que foi menos de metade da última vez e sucesso, a FED I era minha! Todos os momentos livres que tive nessa estada foram passados com a Miss FED I, que lentamente lá foi recuperando a força do seu obturador e começou a funcionar com toda a regularidade e suavidade.



Hoje, passados já alguns anos, continuo a gostar da máquina e interrogo-me se a FED fosse uma pessoa, teria a história acabado com um "From Russia with love".

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