sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A máquina que mudou o homem ou Yashica Lynx 5000




Até que o título não é exagerado. Esta máquina mudou este homem,  mas não nos adiantemos e façamos uma viagem ao meu passado (sem violinos e músicas lamechas). 


Em minha casa não havia tradição fotográfica. Para dizer a verdade existia uma velha Agfa Rapid que raramente funcionava, a bem dizer, não existia uma máquina fotográfica. Ora, num verão, os meus tios e padrinhos convidaram-me para passar umas férias com eles no sul do nosso jardim à beira-mar hipotecado. Como bom adolescente, delirei com a ideia de me livrar dos papás por uns dias e ir conhecer os Algarves e outras coisas. Estava empolgado com a empreitada, mas de repente uma nuvem negra abateu-se sobre o azul daquele verão. Como guardar a recordação da viagem sem ser na minha cabeça, pois "máquina de fotos" não tinha, e a Agfa, coitada, já nem rolos havia. Pânico.



Confidenciei a uma grande amiga minha o meu grave problema de registo da memorável  viagem. Como quem tem amigos não morre na cadeia, a minha amiga prontificou-se a emprestar-me a máquina que o pai tinha comprado em Angola nos anos 60, uma Yashica Lynx 5000.  








Apesar de já na altura a Yashica Lynx ter os seus 20 anos, achei-a o cumulo da tecnologia e senti-me completamente como um burro a olhar para um palácio. O que me salvou de naufragar perante este monstro tecnológico foi um papelito posto no estojo de cabedal onde se podia ler: sol f11, 1/125, sombras f5,6 , 1/60.


Armado destes conhecimentos conhecimentos fotográficos, com a Yashica Lynx 5000 ao ombro, lá fui eu para as terras dos mouros, com um rolo de 12 fotografias.


A modéstia impede-me de comentar os resultados fotográficos conseguidos com a Yashica, mas fiquei completamente rendido à fotografia, estilo alguém do século XIX que tivesse visto um daguerreótipo pela primeira vez, exactamente a mesma coisa, só que 100 anos atrasado.





Foi com grande pena que tive de devolver a Yashica ao seu dono, melhor, à filha do dono. Ainda me passou pela cabeça tornar-me criminoso, mas não tenho perfil. Muito desgostoso, lá entreguei a máquina e tenho a certeza que foi a última vez que essa máquina tirou fotos.


Bom, alguns anos depois de árdua poupança de moedas, pensava que já teria dinheiro para comprar uma máquina fotográfica. Para meu espanto, fiquei a saber que máquinas como aquela Yashica já não existiam, eram coisa dum passado já muito passado. Triste, lá comprei uma reflexa, tinha LEDs e tudo, estava de volta ao século XX.

No entanto, nunca esqueci Yashica Lynx 5000 e quando comecei a coleccionar máquinas antigas, sempre esperei encontrar uma. Como sempre, o destino da-nos tudo, mas adora rir antes de dar.


Um dia lá encontrei numa feira de velharias uma dita cuja igualzinha à original, só que em pior estado e com um filtro na frente da objectiva. Fiquei doido de alegria, foi como ter reencontrado uma velha amiga da escola. Corri a comprar um rolo de 36 fotos (nesta altura já era rico, como se deduz!) e toca a disparar a torto e a direito. Lembro-me perfeitamente de ter ido a Valença do Minho e ter levado a Yashica, todo contente, embora já as outras pessoas se rissem do artefacto. Eu tinha aquele ar de superioridade de quem sabia que a Yashinon 45 mm/1,8 era uma jóia. Mal podia esperar para ter aquele rolo revelado. 


Quando recebi as fotografias fiquei abismado, céus, que era aquilo? As fotos estavam todas desfocadas, mal se conseguia perceber o que raio estava na fotografia. Fiquei para morrer, como é que em segundos aquela máquina tinha destruído uma das minhas melhores memórias! Não me dei por vencido e comecei a tentar encontrar explicação para aquele desastre fotográfico. Depois de tudo testar e ir eliminando causas (estilo CSI das máquinas fotográficas), voltei a verificar o filtro que estava na objectiva e "eis senão quando", o diabo do filtro era uma uma lente de aproximação de +1 dioptria! Estava explicado o fenómeno. Escusado será dizer que isto foi uma vergonha para a minha pessoa que já tinha mais que obrigação de ver estas coisas. O pior foi quando me pediram fotos desse passeio, foi humilhação que faltava, depois de tanto gabar a máquina.

Cem anos que viva, nunca a esquecerei, nem esta, nem a outra. A Yashica Lynx 5000 abriu-me as portas da fotografia e depois dela nunca mais fui o mesmo.


3 comentários:

  1. Parabéns Paulo por este espaço. Grande Abraço.

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  2. Parabéns! Muito bom e a tua colecção merece! Não estou é a ver quem seja o "melga"... :-P Abraço grande!

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  3. parabens...Paulo ; tyesko , fortaleza BRASIL.....................

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